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Berlim Alemanha
Poucos podem se dar ao luxo de abrir as portas de casa
em dias de arrumação. Os quase 4 milhões de berlinenses não só podem
como fazem isso com muito orgulho.
A capital da Alemanha unificada, transformada num
gigantesco canteiro de obras, vive um momento especial em sua história.
Mudanças profundas – arquitetônicas e urbanísticas – estão dando
uma nova feição à antiga sede do império prussiano e bunker do III
Reich. Um processo de reconstrução único, ao custo de cifras
arquibilionárias, vem reunindo as duas faces de uma mesma moeda.
Desde que o Muro foi derrubado em 1989, ossies
(ocidentais) e wessies (orientais) viram-se frente a frente após décadas
de separação, sob as pilastras da Porta de Brandemburgo. E puderam,
livremente, ganhar a metrópole sem se submeter às barreiras que dividiam
os 23 bairros da cidade. Passada a euforia da reunificação, deram-se
conta de que o concreto que até então os dividia ainda existia nos
porões do inconsciente.
O turbilhão das mudanças acabou envolvendo todos num
esforço incomum. Hoje, a cidade passa por um processo de “metástase”
urbana, como bem definiu o escritor Mario Vargas Llhosa. Bairros antes
periféricos, como Kreuzberg, viram-se, de um dia para o outro, no centro
geográfico da urbe.
Tudo mudou rapidamente, com a súbita valorização do
ex-setor oriental. Se antes a Friederichstrasse era apenas um corredor de
lojas, hoje é uma “galeria” a céu aberto que ostenta as grifes mais
importantes do universo consumista. E iguala-se, por seu requinte e seus
preços, a similares de Milão, Nova York, Paris e Madri, superando até a
Kudamm, esta do lado ocidental.
No rastro das obras, demolições e edificações,
surge no horizonte berlinense um sem-fim de teatros, bistrôs, galerias e
restaurantes. Nos antigos domínios dos wessies multiplicam-se opções de
lazer e entretenimento. Vive-se uma efervescência cultural – com
direito a muitas exposições e muitos debates – equiparada à de Paris
nos anos 50. A cena noturna, sem hora para acabar, conta com centenas de
lugares e ambientes, para todas as tribos sociais. O frenesi das
discussões políticas e literárias vara a madrugada.
Nesta Torre de Babel em que se transformou, Berlim, com
suas comunidades étnicas, é uma festa embalada por múltiplos sons, de
britadeira a rock e música clássica. Os turcos ainda são maioria entre
as 160 nacionalidades diferentes que vivem em Berlim, considerada a
terceira maior cidade turca do mundo – atrás apenas de Istambul e
Ankara.
Nesse panorama multirracial, 220 mil estrangeiros
residentes dobram a língua para se expressar no idioma de Goethe. Muitos
deles, trabalhadores que passam o dia pendurados em guindastes ou enfiados
dentro da terra, empregados na construção civil.
Se a integração social é lenta – entre os
próprios alemães e deles com os estrangeiros – e quase dez anos
pós-Muro os orientais ainda não têm o padrão de vida e os salários
dos ocidentais, há outros ganhos que ajudam a superar as diferenças.
Hoje, Berlim é uma cidade de duplos. Ou a que tem de
tudo em dobro, quando não o triplo. Além de filarmônicas, bibliotecas,
rádios, sinfônicas e aeroportos (são três), há 170 museus, 500
igrejas, 5 mil bares (só de marca de cerveja a Alemanha produz 7 mil),
135 teatros e três óperas. Isso sem falar no número de palácios,
parques e monumentos. Lá, mais do que em qualquer outro lugar, somar é
igual a ganhar. Que o digam a população e os turistas.
Com muito trabalho, a cidade vem se preparando para
reassumir, no próximo milênio, seu lugar de destaque no mapa
geopolítico da Alemanha. Mas são tantos os predicados que é bem capaz
que Berlim transcenda os próprios limites e assuma, com todo o direito, o
título de capital cultural da Europa.
Das marcas do passado de ocupação não mais do que
alguns metros de Muro ainda estarão de pé, para lembrar que a história
não pode se repetir. Até lá, espera-se que um outro “muro” que
ainda resiste na mentalidade de uma minoria seja colocado abaixo. Aí,
então, a casa de todos os berlinenses estará definitivamente em ordem.
A Alemanha é um país de muitas faces. Se Frankfurt é
mundialmente associada aos engravatados homens de negócio e Munique
aparece no mapa como epicentro de festas populares (a Oktoberfest, por
exemplo), Berlim concentra boa parte das atividades culturais do país e
até do continente.
A ‘ficha técnica’, por assim dizer, da cidade dá
a exata dimensão de sua vocação para o entretenimento. Com uma
superfície de 880 quilômetros quadrados (igual à de Nova York), Berlim
promove 1.400 atividades artísticas diárias. São 170 museus, 300
galerias de arte, 130 cinemas e 250 bibliotecas, isso sem enumerar
filarmônicas, sinfônicas e dezenas de teatros e casas de espetáculos. A
esse patrimônio devem ser acrescentados 5 mil bares e 500 igrejas.
Números que revelam, sem margem de erro, o culto dos berlinenses à
boemia. Só as cervejarias (os kneipers) somam 3 mil. Com tanta oferta de
lazer, a cidade fica 24 horas no ar.
No velho centro (Mitte), a antiga área habitada pelos
judeus antes da Segunda Guerra, a Scheunenviertel, sobreviveu aos horrores
de Hitler e mantém preservada grande parte de seu patrimônio
arquitetônico. Hoje, o local é uma espécie de versão berlinense do
SoHo nova-iorquino, onde se assiste à multiplicação de galerias de
arte, estúdios, restaurantes e bistrôs.
Outros exemplos de bairros charmosos são Neuköln e
Kreusberg, este último com forte concentração de moradores de origem
turca. Nas Ruas Fidicintrasse e Kledenstrasse, o conjunto de prédios
construídos entre 1910 e 1920 ‘transporta’ o visitante ao cenário de
filmes como Lili Marlene e Cabaré. Ali, o visitante sente-se envolvido em
uma atmosfera digna de cenário.
Nos arredores da estação de metrô Witengarten – o
prédio é de 1904 – também não faltam opções para notívagos de
todas as tribos sociais. O passaporte para um universo de conforto e bons
serviços é o limite do cartão de crédito.
Entre um local e outro também não faltam bares de
clima underground. As páginas do livro Cristiane F. Drogada e
Prostituída ilustram de maneira realista essa faceta nada atraente de
Berlim. No metrô, punks costumam dar demonstrações explícitas de
autoflagelamento. Quase sempre em grupo, de longe eles chamam a atenção
pelas roupas, pelos acessórios que carregam e pelos modos, diga-se, pouco
convencionais. Mas ninguém deve se intimidar com isso. Os berlinenses, na
maioria, são simpáticos e prestativos. E fazem de tudo para entender e
ajudar os que não dominam a língua alemã.
Um tour por Berlim ainda inclui outras paradas
obrigatórias. Como o Palácio de Charlotemburgo, a Torre de TV (com 368
metros de altura), o Museu Egípcio (onde está o busto da rainha
Nefertiti, “a caolha mais fotograda do mundo”, do ano de 1340 a.C.) e
a Gemäldegalerie, com importante acervo de pinturas.
Outra visita indicada é ao Museu do Muro (Checkpoint
Charlie). Lá, dá para se ter uma idéia de como viviam os orientais nos
tempos de divisão. O espaço armazena objetos, carros – e outros meios
de transporte – utilizados nas diversas tentativas de fuga para o lado
ocidental, além de farto material ilustrativo, como fotos,
documentários, jornais, etc. (ingressos a 8 marcos – US$ 4,50).
Outra atração em si é o que restou do Muro da
Vergonha. Erguido em agosto de 1961, em um fim de semana, dividiu Berlim
em seis áreas. Dos 165 quilômetros de extensão, resta apenas 1 km.
Depois da queda, em 1989, as pedras tornaram-se peças de relíquia e são
vendidas, com certificado de garantia, por preços que variam de 10 a 30
marcos (entre US$ 6 e US$ 18, aproximadamente).
Bem mais agradável aos olhos, West End é um dos
lugares mais arborizados e elegantes de Berlim. Na época da divisão, era
o setor inglês da cidade. As casas, a maioria do começo do século, têm
fachadas imponentes. Ali, todas as ruas levam o nome de plantas
frutíferas. O bairro reúne cerca de 230 mil árvores, todas elas
numeradas.
Se o assunto é obras, é inevitável não falar de
Potsdamer Platz, um canteiro gigante de 140 mil metros quadrados. Das
empresas que estão investindo na reconstrução daquela que foi a praça
mais movimentada da Europa nos anos 30 e posteriormente arrasada e
dividida no período de divisão, Daimler-Benz ( a Mercedes) e Sony são
as que mais dólares desembolsam.
A área, repleta de operários e guindastes, está
sendo revitalizada com a construção de torres de escritórios, teatros,
hotéis, restaurantes, lojas e prédios residenciais. Até uma praça
será dedicada à Marlene Dietrich, onde será montado um museu com os
objetos pessoais da atriz de maior projeção da Alemanha.
Potsdamer Platz fica localizada entre dois
cartões-postais de Berlim. O Reichstag, sede do Parlamento alemão, e a
Porta de Brandemburgo. Erguido em 1792, esse símbolo de concreto esteve
durante quase três décadas cerceado pelo Muro da Vergonha. Nesses dias
de reunificação, ganha mais sentido do que nunca a escultura – já
patinada pelo tempo – da deusa da vitória, posicionada no alto do
monumento. Com expressão serena, a imagem parece vislumbrar no horizonte,
finalmente, o êxito do bom senso.
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