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Buenos Aires Argentina
Conhecer a Argentina é programa bom e barato. Esqueça
as rivalidades e pratique o portunhol na terra do tango
Esqueça as disputas no futebol e na economia: a
Argentina é logo ali, uma viagem de cerca de duas horas de avião, a um
custo bem razoável. E Buenos Aires corresponde aos mais variados sonhos
de consumo, dos shoppings ao tango. Além disso, para alívio de muita
gente, nem é preciso falar inglês: um portunhol improvisado geralmente
resolve qualquer problema.
Buenos Aires é considerada a mais européia das
capitais sul-americanas. A forte imigração italiana e o trabalho de
arquitetos franceses no século XIX certamente têm muito a ver com esse
conceito. É uma cidade que convida a grandes caminhadas: ruas e avenidas
planas, largas, arborizadas, poucas ladeiras. E, o mais importante, uma
profusão de cafés se sucedendo, convidando a uma parada que pode ser
rápida ou longa: mesmo que se tome apenas uma xícara de cortado, o
expresso curto servido com uma gota de leite, ninguém vai ficar
aborrecido se o cliente se demorar por uma hora ou mais. Há, inclusive,
quem passe horas lendo um livro numa mesa de café consumindo apenas um
café. É tradição e isso tem de ser respeitado. Afinal, o mais antigo
café de Buenos Aires, o Tortoni, foi fundado em 1858. Ainda existe, no
825 da Avenida de Mayo, e mantém todos os detalhes da decoração
original intactos. Imagens e fotos nas paredes ajudam a resgatar a
história que não é conhecida por todos os garçons que ali trabalham.
A Grande Buenos Aires é onde mora um em cada três
argentinos. A população de portenhos chega a 11 milhões de pessoas.
Eles tomam vinho de uvas colhidas nas encostas dos Andes, comem carne de
carneiro da Patagônia e de gado alimentado pela grama dos Pampas - a
parrillada é mais uma tradição que merece ser degustada com calma e sem
moderação. Só o vinho e a carne da Argentina já justificam uma visita
ao país. Mas há muito mais para ver e experimentar.
É sempre bom lembrar que Buenos Aires é um convite
quase irresistível ao consumismo. Além dos alfajores (dizem que os
melhores são os de Santa Fé) e dos artigos de couro (pouca gente
consegue voltar sem alguma coisa na mala), as vitrines do Patio Bullrich
(um magnífico shopping instalado num antigo local de leilão de gado) e
das Galerias Pacifico (na irresistível Calle Florida, velha conhecida dos
brasileiros) podem provocar pequenos rombos nas contas bancárias.
A recomendação ideal seria para o turista se perder
pelas ruas da cidade. Mas é difícil se perder. Buenos Aires se estende
como um leque a partir do porto no rio da Prata. A Avenida De Mayo forma o
principal eixo deste leque, indo da Casa Rosada, residência oficial da
Presidência da República, até os edifícios do Congresso. A Plaza de
Mayo, localizada bem em frente à Casa Rosada, é citada em todos os guias
de turismo devido aos imponentes edifícios em estilo colonial que a
cercam. Mas é também o local onde se reúnem para protestar, todas as
semanas, as mães de desaparecidos políticos. São as conhecidas madres
de la Plaza de Mayo. Do ponto central da Avenida de Mayo sai a 9 de Julio.
Mais que uma avenida, ela é um boulevard, o verdadeiros centro da cidade.
Na parte sul da Plaza de Mayo está o distrito de San
Telmo, encantador com suas casas de paredes brancas, poucos edifícios e
bares com garrafas de vinho penduradas sobre os balcões. No meio do
distrito fica a Plaza Dorrego, onde acontece, todos os domingos, um dos
mais famosos mercados de pulga do mundo. É o programa perfeito para o
final de semana.
Começa-se percorrendo as seis fileiras de barracas de
objetos antigos que circundam a praça. Prata, relógios, bronzes,
porcelanas; objetos gauchescos; gravações novas e antigas de tangos
velhos e atuais - às vezes, acontecem algumas apresentações
acompanhando um casal que dança no centro da praça. Tudo merece
atenção e, eventualmente, uma compra.
Depois, vale a pena caminhar alguns quarteirões. Na
Avenida San Juan está um dos muitos exemplos argentinos de reciclagem de
ocupação de um imóvel: o Museo de Arte Moderno foi instalado numa
antiga fábrica de tijolos e cimento. Ali, entre telas de Dalí e Picasso,
está a obra de Carlos Gallardo, um dos mais expressivos pintores
argentinos.
O passeio pelo museu é o tempo suficiente para a feira
terminar. É quando a Dorrego se transforma num grande café ao ar livre,
com mesas espalhadas por toda sua extensão, servidas por garçons
vestidos em preto e branco, lembrando pingüins. Mais uma vez a tradição
e o charme caminham juntos: cada balón de cerveja vem sempre acompanhado
de um potinho de amendoins - são los platitos, uma variação dos tapas
espanhóis.
A estas alturas, a noite já terá caído, mas ninguém
sai correndo para casa. A noite, em Buenos Aires, está apenas começando.
O jantar deverá acontecer em torno de meia-noite ou uma da madrugada.
Tomo Uno, El Palacio de la Papa Frita, Los Immortales, La Estancia são
apenas alguns exemplos de locais para uma boa refeição, que pode
começar com uma porção de provoleta, o provolone temperado com orégano
e grelhado.
Caminhar à noite é fascinante. Não é raro
encontrar, em torno de uma hora da madrugada, grupo de senhoras, todas
vestidas com elegância, maquiadas e perfumadas, passeando pelas ruas ou
tomando uma cerveja em algum bar, sem nenhuma preocupação com a
segurança. A 9 de Julio parece ser o ponto favorito para a movida deste
povo que intitula a própria cidade de la ciudad que nunca duerme. Nela, o
ponto de maior destaque é o Teatro Colón, um centro musical comparado ao
Scala de Milão e ao Metropolitan de Nova York. A construção do Colón
demandou 18 anos e três arquitetos. Hoje, o teatro garante trabalho a
1.300 pessoas.
Outro lugar de passeio obrigatório é La Recoleta, um
dos pontos mais elegantes e caros de Buenos Aires e onde se confirma o
clichê de que a capital portenha é a Paris da América do Sul.
Edifícios luxuosos abrigam pequenas lojas sofisticadas e se debruçam
sobre ruas arborizadas, em cujas calçadas cafés e restaurantes espalham
suas mesas. Vale uma visita pelo menos para tomar um sorvete do Freddo - o
mais popular é o sambayon. Com um pouco mais de tempo, recomenda-se uma
parada no café La Biela ou o de la Paix. No alto da rua, a igreja de
Nuestra Señora del Pilar, considerado um dos mais belos edifícios
coloniais da cidade, conserva um altar barroco todo entalhado em prata. Em
torno da Recoleta existem vários pontos de interesse: o Palais de Glace e
o Museo Nacional de Bellas Artes. E, claro, o cemitério que deu o nome ao
local, onde está enterrada Evita Perón.
Uma das mais importantes atrações da cidade é o cais
remodelado, o Puerto Madero. A exemplo do que foi feito em Lisboa, nas
Docas de Alcântara, e em Barcelona, na Barceloneta, as docas portenhas
passaram por uma enorme reforma, a partir de 94 e hoje é a área mais
cara da cidade, tanto para morar como para comer. O metro quadrado ali
fica em torno de US$ 1.800 e, nos restaurantes (fora as redes de fast-food),
raramente se gasta menos de US$ 30.
Quem assistiu ao filme Tango Lesson, escrito e dirigido
por Sally Potter (que define o tango como 'uma lição de vida'), ou
lembra a cena de Al Pacino dançando "Por una Cabeza" em , viu a
força que pode ter uma dança. Em Buenos Aires, é uma válvula de escape
para tudo que não funciona ou que deveria ser mas não é. Romântico e
melódico sempre, mas angustiado e lamentoso, o tango é um dos maiores
atrativos que a cidade oferece - seja cantado, dançado, ou ambos.
O tango tem sua origem nos bares portuários. No final
dos anos 20, invadiu a Europa e os Estados Unidos - uma tempestade
passageira, como vários outros ritmos musicais. Na Argentina, encontrou
seu berço e formou seguidores. Carlos Gardel é a maior prova disso. E
hoje ali funciona a única Tango FM que se tem notícia no mundo.
Os turistas geralmente vão assistir a exibições de
música e dança em bares como Michelangelo, La Ventana, Tango Mio ou
Señor Tango - neste último costuma-se apresentar o cantor Fernando Soler,
considerado um dos melhores da atualidade. Embora correto, assistir a
esses espetáculos é mais ou menos como ver uma apresentação de
passistas de uma escola de samba num clube noturno em qualquer capital
brasileira: é coisa para turista.
A alma do tango está mesmo nos pequenos clubes, nos
boliches de tango, instalados em escondidas ruas de San Telmo. Como o Bar
Sur (Calle Estados Unidos), onde, além dos cantores que se apresentam,
qualquer pessoa pode pedir uma música e cantá-la, com direito a
acompanhamento ao piano. Não é difícil chegar ali e permanecer por toda
a noite - sem perceber.
A Avenida de Mayo passou por um projeto de
recuperação que pretende resgatar o esplendor do começo do século,
quando o primeiro bulevar de Buenos Aires abrigava seus hotéis mais
elegantes. O projeto segue a tendência mundial de revitalização de
áreas de significado histórico e cultural que foram abandonadas.
O trabalho recupera toda a área, ao contrário do que
foi feito em La Boca, cuja história parte da atividade portuária e da
imigração italiana do século passado, que trouxe as cantinas para o
bairro. Essas, com os teatros e o tango, faziam a fama de boa boemia do
lugar. Hoje, o aspecto de La Boca é decadente. Exceção a uma rua, onde
as casas foram tombadas e pintadas com muitas cores (como eram todas
antigamente) para virar atração turística: trata-se de El Caminito,
homenagem a Carlos Gardel, que leva o nome de um famoso tango composto por
um grande amigo do cantor.
A ruazinha fica cheia de artistas de rua que disputam a
atenção do turista. O dançarino de tango se faz de estátua até que
uma turista resolva desembolsar um peso para arriscar um "passito"
ou tirar uma fotografia ao seu lado. Uma senhora adivinha destinos. Outros
vendem quadros e imagens de El Caminito. Assim, os visitantes andam de um
lado para o outro na ruazinha, compram lembranças e voltam a embarcar nos
ônibus de excursão. Além de navios caindo aos pedaços e muita
poluição, não há nada de extraordinário no Canal do Riachuelo,
afluente do Mar del Plata.
Diferente de Puerto Madero, antiga região portuária
que ficou esquecida por mais de 80 anos para hoje se tornar um dos lugares
mais badalados da vida portenha. Durante o dia, o movimento fica por conta
das lojas, dos cafés e dos escritórios que se instalaram nos antigos
armazéns de tijolos. À noite, nas docas reformadas e transformadas em
restaurantes transados janta-se na companhia de gente bonita à beira do
Plata. As obras de revitalização devem se estender por bastante tempo e,
no final do projeto, as docas deverão ser transformadas em museus,
hotéis, um centro de convenção e uma marina.
Depois de passear pelas ruas da região central,
aproveite para conhecer a charmosa periferia de Buenos Aires
Quem já percorreu a cidade pode ir para os arredores.
San Isidro, por exemplo, um bairro afastado, que margeia o rio da Prata,
merece uma visita. Ali estão as mansões portenhas, com direito até a
deck e marina no rio. Para chegar lá, é preciso tomar o Tren de la
Costa, um metrô de superfície que liga a estação de Maipu, em Olivos -
onde mora o presidente - à cidade de Tigre, sempre margeando o Prata.
Durante o trajeto, o visitante pode descer e subir do trem com o mesmo
bilhete, sempre que quiser. A estação de San Isidro é a mais bem
estruturada e conta com o único shopping center ao ar livre da Argentina.
Mas se a procura é por diversão, siga direto no trem
até Tigre. Ali funciona o Parque de la Costa, um complexo de diversões
temático com atrações para toda a família - mais ou menos como o Play
Center. Enquanto as crianças se divertem nos brinquedos, os pais podem
dar uma volta na roda-gigante, da qual se tem a visão de toda a região,
passear de catamarã pelo rio ou comer em um dos restaurantes.
Tigre é um local dos mais pitorescos. Localizada na
confluência dos rios Lujan e da Prata, a região é totalmente recortada
por pequenos rios, que formam canais em cujas margens ficam as casas. Não
há como chegar às residências por terra, só pelos canais, de barco.
Assim, ao invés de ruas, o endereço dos moradores é indicado por
riachos e ribeirões. Abastecimento e serviços são realizados sempre por
via fluvial.
A cadência dramática do tango mais do que nunca
embala o povo argentino. As tevês e os jornais do mundo inteiro estouram
imagens e manchetes de uma crise socioeconômica sem precedentes. Mas nada
disso é notado pelo turista que visita Buenos Aires, a capital da
Argentina e de todos os males que sofrem "nossos hermanos". As
ruas fora do microcentro estão tranqüilas. Um acréscimo de 2 mil
policiais, que ganharam meio de transporte especial (motos adaptadas com a
inscrição "Polícia Turística"), asseguram o clima de
normalidade.
Com a desvalorização do peso, o bolso do turista se
esvazia em compras na mesma proporção em que a mala se enche. Tem de
haver espaço para roupas de grife e de outlets, artigos de couro, objetos
de decoração e o que mais couber na bagagem. A Argentina é sinônimo de
promoção para o brasileiro.
E os portenhos sabem disso. "Para o Brasil, Buenos
Aires tem tudo para ser o principal destino no exterior", afirma
Ruben Eduardo Ali, diretor-geral da Secretaria de Turismo e Esportes da
República Argentina no País. As razões? "Distância, diversidade
de atrações, qualidade de serviços", enumera Ali, que não ignora
o nosso interesse em fazer compras lá.
O diretor garante que o turismo hoje recebe tratamento
de "principal produto de exportação" da Argentina. E o
brasileiro é consumidor campeão da América do Sul. O país recebeu 400
mil em 2001, espera 600 mil em 2002 e o objetivo do governo é elevar a
cifra para 1 milhão em três anos. Quem faz agora o convite à visita é
o diretor, mas pode-se considerar de todos os argentinos: bem-vindos sejam
os vizinhos!
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